Transplante de córnea: conheça mais sobre esse procedimento
Transplante de córnea é um procedimento cirúrgico que possibilita a substituição da córnea danificada por uma córnea saudável, geralmente proveniente de um doador falecido. Trata-se de uma cirurgia indicada para restaurar a visão em casos de doenças corneanas graves que não respondem a outros tratamentos clínicos ou cirúrgicos.
A córnea é a estrutura transparente localizada na parte frontal do olho, responsável por permitir a passagem e o foco da luz. Quando esse tecido perde a transparência, sofre deformações ou cicatrizes, a visão pode ser severamente comprometida — chegando até a causar cegueira.
Por que o transplante de córnea é necessário
O transplante de córnea é indicado apenas em casos extremos, quando não há mais alternativas para recuperação da visão. Doenças como ceratocone, distrofias corneanas, cicatrizes pós-trauma ou infecção, ceratopatia bolhosa, e falência de enxertos anteriores são algumas das causas que levam à indicação do procedimento.
O procedimento é considerado de alta complexidade, com riscos significativos durante e após a cirurgia, o que exige uma estrutura hospitalar devidamente credenciada e profissionais especializados.
Tipos de transplante de córnea
Existem diferentes técnicas para o transplante, e a escolha depende da camada da córnea afetada:
- Ceratoplastia Penetrante (PK): Substituição total da espessura da córnea. É indicada quando todas as camadas estão comprometidas.
- Ceratoplastia Lamelar Anterior Profunda (DALK): Substituição das camadas anteriores da córnea, preservando o endotélio. Indicada, por exemplo, em casos de ceratocone avançado.
- Ceratoplastia Endotelial (DMEK/DSAEK): Técnica que substitui apenas as camadas internas, indicada para doenças como a distrofia de Fuchs.
Técnicas mais modernas como a DMEK permitem uma recuperação mais rápida, menor risco de rejeição e melhor qualidade visual.
Como funciona a cirurgia
A cirurgia é realizada com o uso de microscópio cirúrgico e instrumentos de precisão. O paciente recebe anestesia local com sedação ou, em alguns casos, anestesia geral. O procedimento dura entre 60 e 90 minutos, dependendo da técnica utilizada.
Durante a cirurgia, a parte doente da córnea é removida utilizando um instrumento chamado trépano ou então usando o Femtosegundo Laser, que realiza um corte circular. Em seguida, o tecido saudável doado é suturado no local, com até 16 pontos no caso da ceratoplastia penetrante.
O pós-operatório é essencial para o sucesso do procedimento.
Recuperação e cuidados pós-operatórios
A recuperação depende da técnica utilizada:
- Na ceratoplastia penetrante, o paciente pode levar até 12 meses para ter uma visão estável. Os pontos são removidos gradualmente durante esse período.
- Na DALK, a recuperação visual é mais rápida, entre 3 a 6 meses.
- Já na DMEK/DSAEK, a melhora da visão pode ocorrer nas primeiras semanas, com estabilização em até 3 meses.
Durante o primeiro ano, o acompanhamento médico é fundamental para monitorar o enxerto, detectar sinais de rejeição e ajustar colírios anti-inflamatórios e antibióticos.
Além disso, é essencial seguir as recomendações médicas quanto a esforço físico, uso de maquiagem, exposição solar e retomada de atividades profissionais.
Riscos do transplante de córnea
Como toda cirurgia, o transplante de córnea envolve riscos. Entre os principais, destacam-se:
- Rejeição do enxerto (pode ocorrer em qualquer momento da vida);
- Infecções;
- Glaucoma secundário;
- Astigmatismo irregular;
- Falência do enxerto, que pode ser precoce ou tardia.
Os sinais de rejeição incluem dor ocular, vermelhidão, fotofobia e piora súbita da visão. Nestes casos, é crucial procurar imediatamente o oftalmologista. O tratamento envolve o uso intensivo de colírios corticoides, podendo evitar a perda do enxerto se iniciado rapidamente.
A fila de espera e a doação de córneas
O transplante de córnea depende exclusivamente de doadores falecidos, com autorização da família. Por lei, a retirada das córneas deve ocorrer em até 6 horas após o óbito, embora esse prazo possa se estender com o resfriamento adequado do corpo.
Cada doador pode beneficiar até duas pessoas com a doação de córneas, além de contribuir com tecido escleral e células-tronco para outros usos terapêuticos.
A fila de espera é única por estado e regulada pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT), vinculado ao Ministério da Saúde. A ordem de prioridade leva em consideração o tempo de espera e a gravidade da condição clínica.
No Distrito Federal, por exemplo, o tempo médio de espera pode chegar a 1 ano e 11 meses, reflexo da alta demanda e dos efeitos da pandemia.
Importância da doação
A doação de córneas pode transformar vidas. Um único ato de solidariedade permite que duas pessoas voltem a enxergar. Falar com a família sobre o desejo de doar é fundamental, pois somente ela pode autorizar a retirada após o falecimento.
Campanhas de conscientização e a atuação dos Bancos de Olhos são essenciais para aumentar o número de doações e reduzir o tempo de espera. No Brasil, os Bancos de Olhos são responsáveis por todo o processo de captação, preservação e distribuição dos tecidos oculares.
O controle de qualidade é rigoroso e segue normas da ANVISA e do Ministério da Saúde, garantindo segurança para quem recebe o enxerto.
Conclusão
O transplante de córnea é um dos maiores avanços da oftalmologia moderna. Ele oferece uma chance real de recuperação da visão para milhares de pessoas que convivem com doenças corneanas incapacitantes.
A cirurgia, apesar de complexa, tem alto índice de sucesso, especialmente com o uso das técnicas mais recentes.
Ainda assim, o sucesso do transplante depende do acesso ao procedimento, da existência de doadores e do comprometimento do paciente com os cuidados pós-operatórios.
Incentivar a doação de córneas é um passo importante para garantir que mais pessoas possam enxergar novamente e recuperar sua qualidade de vida. Se você deseja ser um doador, converse com sua família e manifeste sua vontade em vida.
O gesto de doar pode representar a luz de uma nova vida para quem vive na escuridão.



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